A nova garota do Rio

Por: Por Diego costa

Saiba por que gigantes do setor de

alimentos como BRFoods e Nestlé estão investindo milhões no

mercado leiteiro fluminense

No dia 20 de janeiro, logo pela manhã, depois da primeira refeição do dia e de um banho demorado, Layana embarcou para uma viagem de 860 quilômetros, distância que separa as cidades de Uberaba, no Triângulo Mineiro, e do Rio de Janeiro. Dois dias depois, na manhã de um ensolarado domingo, lá estava ela no Aterro do Flamengo, uma das paisagens de cartão-postal da Cidade Maravilhosa, pousando para a foto que ilustra a abertura desta reportagem. Do alto de seus 550 quilos, Layana, uma vaca leiteira da raça gir, de quatro anos, desfilou pelo gramado em frente à areia da praia carioca, levada pelo seu dono, o criador Felipe Picciani. Depois das fotos, em vez de voltar para a fazenda de Minas Gerais, Layana montou no caminhão e seguiu para outra fazenda no interior do Estado, onde passará a fazer parte do rebanho de genética leiteira de ponta da Agropecuária Copacabana (Agrocopa), um projeto de Picciani em parceria com o ator da Rede Globo Murilo Benício e os criadores André Marcos Monteiro e Anderson Silva. "Esta vaca representa um movimento em curso no Rio de Janeiro que envolve de criadores a grandes indústrias, como a Nestlé e a BRFoods", diz Picciani. As duas empresas já tiraram do papel projetos avaliados em mais de R$ 230 milhões para a construção de fábricas de produtos lácteos no Estado. Para suprir a demanda que vem por aí, os criadores começam a investir em genética visando a aumentar a produção leiteira. "Precisamos andar rápido daqui para a frente", diz Picciani.

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Picciani:

"Esta vaca representa um

movimento em curso no rio de janeiro"

A pecuária do Rio de Janeiro nunca esteve em condições de ser comparada à de Estados como Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná, grandes produtores de leite. Minas Gerais, por exemplo, produz acima de oito bilhões de litros por ano e tem um rebanho de 5,3 milhões de vacas leiteiras. O Rio de Janeiro possui um rebanho leiteiro de apenas 420 mil fêmeas, com produção que estava praticamente estacionada na faixa de 460 milhões de litros nos últimos anos.

A principal razão para a baixa produção no Estado é a falta de investimento dos pecuaristas em animais de maior potencial genético para a produção de leite. E aí está armado o círculo vicioso, que começa a ser rompido. Por falta de matériaprima, as empresas não tinham interesse em instalar unidades processadoras no Estado, mesmo com um mercado consumidor de 16 milhões de habitantes que demandam 2,6 bilhões de litros de leite por ano.

Para superar esse descompasso, o governador do Estado, Sérgio Cabral, começou a discutir metas com criadores e associações do setor, em 2006, logo que assumiu o cargo. Desde então, uma série de medidas começou a ser implantada, entre elas a redução a zero do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) para a indústria, que até aquele ano era de 18%. A partir da desoneração do ICMS, por arcar com uma carga menor de impostos, os supermercados passaram a preferir em suas gôndolas produtos originários do próprio Rio de Janeiro. "Os supermercados compraram a ideia do produto feito no Estado porque podem vender o leite mais barato", diz o secretário de Agricultura e Pecuária do Rio de Janeiro, Christino Áureo.

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Ao mesmo tempo que o governo do Estado estabelecia condições favoráveis à indústria, foram criados dois programas na extensão rural. O primeiro, iniciado em 2007 e batizado de Rio Genética, nos últimos dois anos, liberou R$ 18 milhões a 700 produtores de leite. "São pequenos agricultores, donos de áreas de menos de 100 hectares que precisam de tecnologia de ponta como inseminação artificial para melhorar o rebanho", disse o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, em entrevista à DINHEIRO RURAL. O segundo programa, o Rio Leite, não é propriamente uma novidade, já que existe desde 2001. Em 2009, o programa foi retomado pelo governo do Estado com o objetivo de criar uma rede de inteligência através de instituições oficiais a fim de orientar os produtores de leite no aperfeiçoamento do manejo do gado e na gestão das fazendas. Nesse programa já foram investidos R$ 6 milhões.

Os resultados começam a aparecer. Os números ainda não são os oficiais publicados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mas, de acordo com Cabral, em 2011 a produção leiteira no Estado já se aproxima de 600 milhões de litros. "Para este ano, o objetivo é elevar o processamento de leite a 700 milhões de litros." Segundo o governador, o Estado deve chegar a um bilhão de litros de leite em três anos. "Ainda não será suficiente para todo o nosso consumo, mas já representa um salto significativo na produção local."

Sérgio Cabral, governador do rio de janeiro

"O Rio deve chegar a um bilhão de litros de leite nos próximos três anos"

É essa disposição do governo do Estado em erguer a cadeia produtiva do leite que atrai projetos como o de Picciani, hoje mais conhecido por ser o presidente da maior entidade de criadores de gado de corte do País, a Associação de Criadores de Nelore do Brasil (ACNB), com mais de 400 sócios que promovem o melhoramento genético da raça. "Mas eu também sou do leite. Há três décadas, minha família já criava gado leiteiro em Rio das Flores, no interior do Rio", diz Picciani, que fatura R$ 30 milhões por ano com o gado de corte criado em fazendas de Minas Gerais e Mato Grosso. "Hoje, estamos transferindo parte do gado gir leiteiro de Minas para o Rio."

Além de administrar os negócios da família, no ano passado, Picciani convenceu seus sócios na Agrocopa, que também criam gado nelore, a investir no leite. O grupo já comprou uma fazenda no município de Simão Pereira, em Minas Gerais, na divisa com o Rio de Janeiro. O objetivo é criar gado girolando, uma mistura de gir leiteiro com holandês, mais rústico, produtivo e adaptado ao clima quente do Estado. Picciani quer vender bezerras em leilões e faturar R$ 1,5 milhão por ano. "Com os leilões programados para 2012 vamos vender 200 animais de genética leiteira apurada."

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Leite:

Rebanho do rio de janeiro

tem baixa produção por vaca

A fazenda Agrocopa fica distante apenas 50 quilômetros de Três Rios, na região central do Estado, na qual a Nestlé instalou sua mais nova fábrica de produtos lácteos. "Nossa meta é vender gado produtivo para os criadores que precisam aumentar a cota de leite para a Nestlé", diz Picciani. A flechada é certeira. A multinacional investiu R$ 163 milhões para inaugurar a unidade em 18 de novembro do ano passado e estima processar 200 mil litros de leite por dia. "Num primeiro momento, vamos processar apenas as marcas de leite fluido Ninho e Molico, vendidas em embalagens UHT", diz Ivan Zurita, presidente da Nestlé. Mas a fábrica tem capacidade para industrializar 124 mil toneladas de produtos lácteos por ano. "A ordem é produzir", diz Zurita. "Precisamos de leite para continuar crescendo." Em janeiro, a Nestlé começou a processar, na unidade de Três Rios, os produtos da linha Sollys e até o fim deste ano passará a fabricar os da marca Nescau. "Com a fábrica, a Nestlé abriu na cidade mil postos de trabalho."

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A BRFoods, outra gigante do setor de alimentos, também está em busca de produção de leite. A empresa anunciou no fim do ano passado um investimento de R$ 70 milhões para a construção de uma fábrica de lácteos no município de Barra do Piraí, distante 120 quilômetros da capital. "A meta nessa unidade é processar 500 mil litros de leite por dia", diz José Antônio Fay, presidente da BRFoods. "No Rio já vendemos o leite da marca Elegê, processado por nós. O produto responde por 40% do consumo de leite em embalagem longa- vida no Estado." A BRFoods processa o leite para a marca Elegê em suas unidades de São Paulo. "Vamos produzir tudo em casa, no Rio."

Nestlé:

Investimento de R$ 163 milhões

gerou mil postos de trabalho

A construção da unidade em Três Rios cuja inauguração está prevista para o segundo semestre deste ano, a BRFoods vai implantar no Estado o Programa de Qualificação da Cadeia Produtiva do Leite, que já promove em outras regiões. "O projeto de qualificação ajuda o produtor de leite a melhorar o manejo dos animais e a produção de leite para que não haja desperdício por falta de higiene, por exemplo", diz Wilson Mello, vice-presidente de assuntos corporativos da BRFoods. "A ideia é que os produtores fluminenses superem a média histórica de oito litros de leite por vacadia no Rio de Janeiro, muito abaixo da registrada em outros Estados produtores." No Paraná, a BRFoods produz em média 25 litros de leite por vaca. "São em polos de excelência como o município de Carambeí que o Rio pode se espelhar."

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